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*MAÍRA RIBEIRO
“Nossa luta agora é para ter no Brasil um canal de televisão indígena”. A afirmação é de Divino Tserewahú, um dos mais conhecidos cineastas indígenas do país. O principal objetivo em ter um canal de televisão indígena, entende Divino, é poder comunicar a versão dos fatos do ponto de vista do índio e preservar a memória de sua cultura.
Divino Tserewahú Tsereptsé, 42 anos, é indígena Xavante da aldeia Sangradouro, localizada no município de General Carneiro no leste mato-grossense. Fez formação em cinema xavante através do projeto Vídeo nas Aldeias, referência nacional na formação e produção audiovisual indígena. Ali, realizou muitos dos seus filmes, como Wapté Mnhönö – Iniciação do Jovem Xavante”,de 1999, Daritidzé – Aprendiz de Curador de 2003 e , de 2009 em co-autoria com Tiago Torres e Amandine Goisbault.
Nos últimos anos, desenvolveu capacitações em produção audiovisual para indígenas e parcerias com universidades e a Missão Salesiana. Atualmente, é coordenador do Museu Comunitário e Centro de Cultura Xavante de Sangradouro. É também o coordenador indígena da I Mostra de Cinema Xavante, que começa dia 30 de novembro = em Barra do Garças. Divino acaba de voltar do festival de cinema etnográfico Fórum Doc em Belo Horizonte e conversou sobre o cinema xavante.

O que é o cinema xavante? Cinema xavante é aquele que o xavante faz. Ele faz a filmagem e monta. O cinema xavante é o filme feito para mostrar para a própria comunidade. O cinema xavante não pode ser traduzido nem legendado, porque já é na nossa própria língua. Agora, o cinema para não-indígena já é outra coisa, aí tem que ser traduzido, bem trabalhado e a história deve ser bem contada. Hoje em dia, comunidades de várias aldeias xavante se divertem com as imagens filmadas de vários assuntos da aldeia, como a luta oi’ó, a corrida de buriti, os cantos. Tudo é assistido por todos os Xavante.

Como você avalia a produção audiovisual xavante atual? O cinema, hoje em dia, repercutiu muito nas aldeias xavante. Por exemplo, se vai ter um concurso de dança dos jovens com premiação, alguém já filma e espalha nas aldeias. Todo mundo quer assistir. E vende para o próprio Xavante. Isso nós vamos discutir na oficina, sobre o direito de uso da imagem para que os jovens que filmam nas suas aldeias aprendam. Outra coisa é deixar a produção para vender em locadora na cidade para outros Xavante comprarem. Nós temos que discutir também sobre isso. Se eu filmei alguma coisa, o pessoal me liga pedindo para que eu mande para que assistam. Eu, pessoalmente, não vendo minha produção, eu dou para os Xavante.

Qual é a importância do cinema para as comunidades Xavante? Para o povo Xavante, o cinema é uma memória. Por exemplo, se um ancião morre. Na semana passada, um ancião foi atropelado na Terra Indígena Sangradouro e morreu. Ele já foi filmado várias vezes. Então, com essas filmagens, a família vai poder rever depois de muitos anos. Por isso, o cinema para o povo Xavante é uma memória que dura, que não acaba. O Xavante sempre se anima com cinema, porque antigamente não tinha registro da cultura xavante. Mas hoje em dia, surgiram várias tecnologias e os jovens se interessam, querem fazer filme. A curiosidade do Xavante é aprender como eu aprendi. Por isso eu dou aula de edição, de montagem, de roteiro, de como contar a história. É muito esforço para seguir esse caminho. Não é só pegar a câmera e filmar.

Como você começou a fazer cinema? Quando comecei, foi muito difícil. Aprendi sozinho. Em 1989, o Vídeo Nas Aldeias [projeto de referência em formação e produção audiovisual indígena] doou uma câmara para a comunidade Xavante de Sangradouro. Eu era muito novo na época. Meu irmão começou a trabalhar com a câmara, mas ele não tinha paciência e largou. Então, eu fiquei com a câmara. Comecei em 1990. Eu filmava muito mal, muito corrido, e mostrava imediatamente para a comunidade, sem edição. Mesmo assim, a comunidade gostava de assistir às filmagens que eu fazia. E fui indo sozinho. Quando Vincent [Carelli, cineasta e coordenador do Vídeo nas Aldeias] me encontrou em 1993, ele começou a me apoiar e me orientar. A partir daí, rapidamente comecei a melhorar.

Valeu o esforço? Valeu. Fui um dos primeiros cineastas formados pelo Vídeo nas Aldeias e um dos primeiros a passar o conhecimento para outros indígenas. O cinema me proporcionou conhecer muitas pessoas.

Qual a diferença entre o cinema feito pelo indígena e não indígena? O olhar indígena e não indígena não é igual. É muito diferente. O olhar do antropólogo também é muito diferente do indígena. Se eu fizer o filme sobre algum ritual de outra Terra Indígena xavante, eu sei o que vai acontecer dia a dia. Meu olhar já conhece, já sei o que eu vou fazer e eu vou acompanhar tudo sem perder nada. Agora, se o não-indígena fizer a filmagem sobre aquela mesma coisa, ele não vai acompanhar tudo, muitas coisas ele não sabe, vai precisar de entrevista, de ajuda, de tradutor, então, o olhar não vai casar. No cinema indígena, com o próprio indígena fazendo cinema, ele sabe das coisas, da realidade, porque ele é da cultura.

O que você espera dessa I Mostra de Cinema Xavante? Essa Mostra que vamos fazer pela primeira vez vai mexer com a população Xavante. Vai ter documentários importantes, o do Armando Lacerda sobre Mário Juruna, o Martírio sobre os Guarani Kaiowá, o Dasiwa’uburezé de Cristina Flória, vai ter o meu Daritizé, o Para onde foram as andorinhas? A partir desses documentários, eu acho que os jovens e as lideranças vão pensar: documentário é isso, fazer filme é isso, contar os problemas é isso. E não fazer de qualquer jeito e pronto. Essa I Mostra vai ser muito importante para a população Xavante. E também para a própria população de Barra do Garças, para conhecer sobre a realidade xavante e indígena do Brasil.