María de Jesús Patricio Martínez durante a sua nomeação como porta-voz do Conselho Indígena de Governo.

De acordo com o Jornal Reuters, no último sábado (dia 7 de outubro), Maria de Jesus Patricio Martinez, porta-voz do Congresso Nacional Indígena, braço político do Exército de Libertação Nacional Zapatista (EZLN), registrou sua candidatura independente nas eleições presidenciais do próximo ano (2018), aumentando a crescente lista de candidatos estabelecidos. Ela foi escolhida após uma votação que reuniu mais de 1.480 delegados, conselheiros e observadores de 58 povos indígenas.

Centenas de zapatistas marcham durante uma manifestação em 8 de outubro de 2014 em San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, para exigir justiça no caso dos 43 estudantes desaparecidos no Estado de Guerrero

Nascida na comunidade dos índios Nahua em Tuxpan, no Estado de Jalisco, Martínez tem 57 anos, é médica tradicional e começou a atuar como porta-voz de sua comunidade em 1994. Desde então vem atuando em hospitais de grupos indígenas e militando pelos interesses dos nativos mexicanos. Após se cadastrar no Instituto Nacional Eleitoral (INE), Maria prometeu não aceitar nenhum financiamento do governo para dirigir sua campanha.

O EZLN foi fundado em meados dos anos 1990 como uma guerrilha inspirada no revolucionário Emiliano Zapata, do início do século XX. No dia 1o de janeiro de 1994, os zapatistas organizaram uma rebelião no Estado mexicano de Chiapas para protestar contra as políticas econômicas adotadas pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que, na visão do grupo, afetavam negativamente as comunidades indígenas. O conflito entre zapatistas e o Exército durou 12 dias e deixou pelo menos 140 mortos, tonando-se um símbolo para os adeptos do movimento antiglobalização.

Após conquistarem um grande apoio popular, os zapatistas acabaram se afastando do combate armado e migrando para uma ação política pacífica. O objetivo principal do movimento é promover a reforma agrária e a redistribuição de renda, além de buscar maior autonomia política e cultural para os povos indígenas.

Segundo as pesquisas eleitorais, o candidato mais cotado para a Presidência mexicana é o ex-prefeito da Cidade do México e duas vezes vice-Presidente, Andrés Manuel Lopez Obrador, esquerdista com inclinações nacionalistas.

O Partido Revolucionário Institucional centrista (PRI), do atual presidente Enrique Peña Nieto, que é proibido por lei de buscar um segundo mandato, ainda não escolheu um candidato para apoiar.

Crianças da aldeia zapatista Javier Hernandez praticam futebol perto do grafite com o retrato de Ernesto Che Guevara (esquerda) e Emiliano Zapata, durante um recesso do segundo dia de encontros entre o Exército Zapatista Mexicano de Libertação Nacional (EZLN) e grupos sociais, em Chiapas, 14 de agosto de 2005

Já foram registrados mais de 10 concorrentes independentes pela primeira vez na história. Entretanto, três desses registrados acabaram não cumprindo com os requisitos iniciais. De acordo com o INE, os aspirantes presidenciais independentes têm quatro meses para reunir 866.593 assinaturas, representando 1% do eleitorado de pelo menos 17 entidades federais, para se qualificarem antes da votação de julho de 2018.

A candidatura de Martínez, juntamente com o apoio dos zapatistas, significa um grande marco para o movimento insurgente, que se manteve aparentemente pouco ativo nos últimos anos. Outro fato que chama a atenção dos analistas é a quantidade de candidatos independentes, pois indica que os partidos tradicionais perderam a representatividade e a capacidade de aglutinar interesses e anseios comunitários.