Mandetta participava da reunião preparatória ao ataque aos caiovás

Escolhido para ministro da Saúde da gestão Bolsonaro, o deputado federal do DEM (MS) Luiz Henrique Mandetta foi apresentado aos brasileiros hoje como “ortopedista” e “pediatra”, com credenciais como médico brilhante com formação nos Estados Unidos – sem nenhuma menção que ele faz parte do núcleo duro dos parlamentares que detestam os indígenas.

No seu currículo na Wikipedia Mandetta expurgou sua participação numa volante de fazendeiros e jagunços contra os índios guarani-caiovás da reserva Marangatu, em 2015, que resultou na morte de um indígena, Simão Vilhalva.

No novo governo,  Mandetta vai ter sob sua responsabilidade a Funasa, órgão do ministério encarregado de atender justamente as comunidades indígenas.

 

Antes do ministério cair no colo dele, seu maior destaque como deputado federal foi  participar de uma grande escaramuça contra os guarani-caiovas em Antônio João.

 

A área em disputa era a reserva Marangatu, que a Funai reconhece como indígena mas que espera demarcação na Justiça desde 1999.

 

Em agosto de 2015, um bando de 40 índios, a maioria mulheres e crianças, anunciou que marcharia de  sua reserva para ocupar uma área contigua, a sede da fazenda da presidente do Sindicato Rural de Antonio João, Roseli Ruiz.

 

Combativa, ela conclamou os vizinhos para atacar os guaranis, impedir a invasão ou retomar o imóvel, qualquer das opções valendo.

 

Mandetta participava da reunião preparatória ao ataque aos caiovás, no Sindicato Rural, na manhã do sábado 29 de agosto.

 

A reunião tinha cerca de 60 fazendeiros.

 

Durante o encontro veio a notícia de que a casa de Ruiz era o alvo da marcha e que seria ocupada por índios que estariam se dirigindo para lá.

 

Armados, tripulando uma frota de camionetes fora de estrada, os fazendeiros e seus jagunços foram enfrentar os supostos invasores.

 

O confronto foi rápido e os índios debandaram, com um morto e alguns feridos. Do lado dos brancos, não houve vítimas.

 

O futuro ministro participou do entrevero, ao lado dos fazendeiros.

 

Não foi possível comprovar se ele estava armado ou se disparou contra os índios, mas mesmo assim ele teve um papel importante no embate: foi a maior autoridade a servir de testemunha em favor dos fazendeiros.

 

Nos dias seguintes à escaramuça, Mandetta disse que o índio morto “não estava flácido” o suficiente para ter sido morto na hora do confronto – inocentando os fazendeiros.

 

Usando sua expertise médica, ele afirmou que o corpo do índio que os guaranis carregavam como vítima do confronto da fazenda estaria duro demais, indicando que teria sido morto pelos próprios índios, que usaram o cadáver como instrumento de propaganda de sua causa.

 

Para dar seu testemunho, já na Câmara Federal, o médico Mandetta disse que viu o corpo a “uns 20 ou  25 metros de distância”.

 

Simão Villhalva está enterrado a 100 metros da sede da fazenda, em área indígena.

 

Até hoje a polícia não identificou o autor do crime.

 

O impasse continua na Justiça.

 

Cacique Loretito e família na cova do guerreiro Simeão, morto em ataque de fazendeiros (Foto: Cris Loff)

Fonte: Diario do Centro do Mundo