Chefe indígena ao lado de uma das barreiras construídas dentro da reserva Tohono O’odhamReprodução / Le Point

A revista francesa Le Point traz em sua edição desta semana uma reportagem sobre a situação de tribos indígenas que vivem na fronteira dos Estados Unidos com o México. O texto conta como vivem os moradores de uma reserva que, apesar de assistirem a perigosa travessia de migrantes ilegais em seu território, contestam o projeto de construção do muro defendido pelo presidente Donald Trump.

A reportagem começa explicando que boa parte da reserva Tohono O’odham fica no estado do Arizona. No entanto, após um processo de delimitação da fronteira datando de 1854, a zona foi dividida entre os dois países, com 17 mil pessoas vivendo do lado norte-americano e outras 2 mil do lado mexicano.

 

A reserva é considerada pela lei como um estado semiautônomo, com seu próprio governo, sua polícia e seu sistema judiciário. Porém, em termos de segurança e imigração, os índios dependem de Washington. E com o aumento do número de migrantes que atravessam essa zona protegida para cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos, o governo norte-americano tem endurecido o controle.

 

Desde o início dos anos 2000, várias barreiras foram criadas dentro da reserva para dificultar a travessia dos migrantes clandestinos. No entanto, esse dispositivo também afeta a vida da comunidade. “Os membros da tribo devem contornar as barreiras para ir até o hospital da reserva e as cerimônias religiosas estão espalhadas dos dois lados da fronteira construídas por Washington”, relata a reportagem.

 

Território hostil

 

Situada em pleno deserto, a reserva é um território hostil para os migrantes, que nem sempre conseguem cruzá-la. Alguns são picados por cobras, enquanto outros morrem afogados nos poucos rios da região ou vítimas do sol implacável. Em 2017, os indígenas da reserva encontraram 79 cadáveres em seu território, a maioria mortos de desidratação.

 

Mesmo assim, explica a revista, os membros da comunidade são contra a construção da barreira gigantesca reivindicada pelo presidente norte-americano. “A palavra ‘muro’ não existe em nossa língua”, contesta um chefe indígena. Segundo ele, o projeto de Trump significa uma profanação de terras sagradas, mas também uma reviravolta na vida da população. “Como vocês reagiriam se alguém entrasse na sua sala e decidisse construir um muro sem te consultar ?”, questiona o líder da comunidade, antes de avisar: “ele vai ter que passar por cima do meu cadáver”.

Fonte: Rfi