Yesica Patiachi durante a coletiva de imprensa de ontem na Sala Stampa do Vaticano. Crédito: Captura Youtube

Vaticano, 17 Out. 19 / 11:35 am (ACI).- Uma das representantes indígenas procedente da Amazônia que participa no Sínodo dos Bispos pediu ajuda ao Papa Francisco para que leve sua mensagem aos organismos internacionais e, deste modo, evite que seu povo seja extinto. Trata-se de Yesica Patiachi, professora bilíngue de Puerto Maldonado (Peru), que é auditora do Sínodo dos Bispos da Amazônia, que ocorre no Vaticano até 27 de outubro.

Não é a primeira vez que esta líder do povo Harakmbut conversa com o Papa Francisco, pois em janeiro de 2018 compartilhou seu testemunho durante a visita papal ao Peru, encontro no qual o Santo Padre anunciou a realização da atual assembleia especial do Sínodo.

Naquela ocasião, foi porta-voz dos povos indígenas para destacar sobre os numerosos sofrimentos e abusos ao longo da história e na atualidade.

Na coletiva de imprensa na Sala Stampa do Vaticano, em 16 de outubro, Yesica disse: “Os povos indígenas fomos, somos e seremos os guardiões das florestas, e cuidar da casa comum é responsabilidade de todos”.

 

“Dissemos ao Santo Padre que nós sentimos medo porque estamos esquecendo nossa língua, ela está se extinguindo, porque somos asfixiados pelos modelos de desenvolvimento que trazem de fora, que não respeitam a vida. Sentimos que os demais nos discriminam por falar uma língua diferente”, confidenciou a líder indígena.

 

Nesse sentido, Patiachi alertou que “muitos querem ver os povos indígenas em uma vitrine e não como uma cultura viva. Por isso, também dissemos que muitas instituições e grandes empresas extrativistas querem nos enfraquecer. Eles querem nos ver divididos e querem que nós desapareçamos, é por isso que queremos estar unidos e fortalecidos”.

 

“Pedimos ao Santo Padre que leve nossa mensagem às organizações nacionais e internacionais e que nos ajudem a fortalecer nossa instituição, que impeçam que nos extingamos como povo, que respeitem nossos costumes, nossa língua, que nos deixem viver em livre determinação”, relatou.

 

Além disso, Yesica denunciou que atualmente, nas redes sociais, “ouvimos muito sobre os novos defensores que alertam sobre o caos climático”. No entanto, lamentou que “esses novos defensores não anunciam uma mensagem a partir da realidade dos povos indígenas, porque estas pessoas não vivem em sua própria carne os crimes ambientais e os crimes que degeneram a casa comum”.

 

Nesse sentido, a líder harakmbut disse que suas avós e mães alertaram “sobre esse caos climático há muito tempo, só que foram invisíveis” e acrescentou que “nenhum jornalista falou sobre seu protesto, pelo contrário, são perseguidas e assassinadas”.

 

“Atualmente, não temos tribuna para denunciar esses crimes que ameaçam nossa segurança territorial, segurança alimentar, saúde intercultural, educação bilíngue intercultural, proteção de nossos recursos naturais e conhecimentos ancestrais, a vida plena”.

 

“Onde está a ONU? Onde está a OEA e outras instâncias internacionais?”, questionou a auditora do Sínodo que também lamentou “os abusos, os assassinatos, tantas vítimas de tráfico de pessoas, os abusos sexuais, os maus-tratos contra a mulher”.

 

Deste modo, Yesica perguntou “onde acudimos para denunciar esses crimes?”. E acrescentou que os indígenas esperam deste Sínodo maior “consciência humana, não queremos que termine com um discurso mercantilista, nem como um de seus muitos discursos políticos no mundo, queremos que isso seja o resultado da consciência humana para começar a usar recursos renováveis ​​sem colocar em risco a humanidade e a casa comum”.

 

Assassinato de 10 mil harakmbut

 

Finalmente, Yesica contou uma história triste que aconteceu há muitos anos no povo harakmbut, em Madre de Dios, no Peru, que naquela época tinha 5 mil habitantes na selva sudeste do país sul-americano.

 

“Com a chegada dos seringueiros, especificamente Carlos Fermín Fitzcarrald, porque sei que houve muito mais na Amazônia, meus avós contam que quando os Harakmbut se recusaram a trabalhar como mão-de-obra barata, mandaram matá-los. Foram enganados e reunidos em uma ilha. Cerca de 10 mil harakmbut morreram naquele dia, eles não conheciam a espingarda nem as armas de fogo. Todos esses corpos foram jogados no rio Madre de Dios”. Por causa dos corpos apodrecidos, as pessoas que viviam mais abaixo “bebiam essas águas e morriam”, afirmou.

 

“É muito triste contar minha história, mas é o que posso resumir. Como aparece Apaktone é esse missionário dominicano, José Álvarez, nós lhe dizíamos Apaktone, que na minha língua significa ‘papai idoso’. Ele veio em épocas como estas que estamos sofrendo, uma época de aflição, e sabendo desta situação, veio de alguma outra forma, por nós e posso dizer que, talvez, se não tivesse sido por ele, eu não estaria aqui para lhes contar a minha versão, para divulgar o meu protesto”, concluiu.