Reclamações dos profissionais indígenas são semelhantes às que se repetem ao redor do País

No combate à pandemia entre os povos indígenas, as reclamações não são diferentes das demais populações, mas se agrava pela distância da área urbana e das condições de atendimento dos hospitais do interior do Estado. Entre os profissionais de saúde, que estão entre os mais infectados, as queixam também se repetem: faltam EPIs. A Fundação Nacional do Índio (Funai) tem sido questionada porque recebeu uma verba de R$ 11 milhões para proteger os índios do coronavírus, mas não desembolsou quase nada. Outra reclamação é de que os números de casos apresentados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) estão subnotificados.A enfermeira Jaqueline Xukuru teme pela saúde do povo indígena. “A Sesai não está dando a ajuda necessária. Os EPIs estão vindo na mesma quantidade de antes da pandemia e alguns povos, como os Pankararu nem isso recebeu. Estamos pela conta dos nossos guerreiros e guerreiras e dos nossos encantados (protetores espirituais). E quem mais morre nisso tudo é o enfermeiro, que está na linha de frente do cuidado.”

Ela conta que até as tradições das etnias estão sendo obrigadas a mudar por conta da pandemia. Uma delas é o ritual da morte. “A sociedade ocidental rejeita seus idosos, porque não produzem mais. Para nós, eles guardam toda nossa sabedoria ancestral. Quando eles morrem não é só um corpo, é nossa memória”, ensina Jaqueline. O povo Xukuru ainda mantém a tradição de velar o corpo e enterrar no território indígena.

“Nós não somos enterrados, somos plantados. Viemos da terra e voltamos à ela”, complementa, contando o caso de uma índia Xukuru que não pôde ser velada e foi encerrada fora do território, mesmo não tendo morrido por covid-19. Os Xukurus contam com três cemitérios para enterrar seus mortos, em Pesqueira. A população da etnia é de 11,6 mil índios distribuídos em 24 aldeias. A comunidade não teve nenhum caso de covid-19 confirmado, apenas uma suspeita, ainda sem laudo.

As comunidades indígenas têm mobilizado suas costureiras para confeccionar máscaras, não só para a população, mas também para os profissionais de saúde. “Aqui temos 25 agentes de saúde e cada um recebeu 17 máscaras para distribuir. A boa intenção tem, mas esse material é pouco. As costureiras é que confeccionam para as pessoas e os parentes”, diz o cacique Cícero Fulni-ô.

Os Pankararu apostaram também nos bloqueios como defesa das aldeia contra o Covid-19

O representante da Sesai em Pernambuco, Antônio Fernando, diz que não estão faltando EPIs. “Para os profissionais não está faltando e com a população distribuímos 2 mil máscaras e 2 mil frascos de álcool 70º com os Fulni-ô que estão com mais casos”, afirma. Sobre a disponibilidade de testes para os indígenas, ele afirma que a Sesai destinou 370 e está adquirindo mais mil. A população indígena em Pernambuco é de quase 61 mil dentro e fora das aldeias.